Insônia no Idoso: causas, sintomas e tratamento
A insônia é uma das queixas mais frequentes entre os idosos e pode ter múltiplas causas — desde alterações naturais do sono até doenças ou uso de medicamentos. Com o acompanhamento adequado, é possível identificar a origem do problema e recuperar noites de sono mais tranquilas e restauradoras.
O que é insônia?
A insônia é caracterizada pela dificuldade em iniciar, manter ou consolidar o sono, mesmo em condições adequadas para dormir.
O diagnóstico é clínico e é considerado insônia crônica quando o paciente apresenta esses sintomas três ou mais vezes por semana, durante pelo menos três meses, com prejuízo funcional no dia seguinte, como cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração ou sonolência diurna.
Nem toda pessoa que dorme pouco tem insônia. Se o indivíduo dorme poucas horas, mas se sente bem e disposto, isso pode ser apenas uma variação individual do padrão de sono — algo comum no envelhecimento.
Como funciona o sono?
O sono é dividido em dois grandes tipos: sono não REM (aproximadamente 75%) e sono REM (cerca de 25%).
Cada um deles tem papel importante na recuperação física e mental.
- Sono não REM: ocorre redução da frequência cardíaca, respiratória, temperatura, relaxamento da musculatura. liberação de hormônios como o melatonina, GH e o cortisol. Dividido em 4 fases, sendo a fase 3 e 4 conhecidos que ocorre o sono profundo
- Sono REM: fase em que ocorrem os sonhos e a consolidação da memória. Sem o sono REM, o indivíduo acorda cansado e desatento, mesmo dormindo por muitas horas. Aqui ocorrem diversas alterações no corpo como relaxamento da musculatura, queda da pressão, movimentação ocular intensa, alteração da temperatura corporal , queda oxigenação. Apesar do paciente estar dormindo, nessa fase temos intensa atividade cerebral.
Durante o envelhecimento, há uma redução natural do sono profundo (fases 3 e 4 do não REM) e do sono REM, o que explica por que o idoso tende a acordar mais vezes durante a noite e sentir o sono mais leve.
Alterações do sono no envelhecimento
Com o passar dos anos, o padrão do sono se modifica.
Entre as principais alterações estão:
- Diminuição do tempo total de sono;
- Sono mais leve e entrecortado;
- Tendência a dormir e acordar mais cedo (avanço da fase do sono);
- Maior número de despertares noturnos, muitas vezes por dor, necessidade de urinar ou uso de medicamentos;
- Redução da produção de melatonina, hormônio natural do sono.
Essas mudanças são fisiológicas, mas quando provocam fadiga, irritabilidade, perda de memória ou sonolência diurna, devem ser avaliadas pelo médico.
Por que a insônia é comum em idosos?
Estima-se que 30% a 45% dos idosos apresentem algum grau de insônia, e esse número aumenta com a idade.
Isso acontece porque o sono depende de múltiplos fatores — hormonais, neurológicos, psicológicos e ambientais —, todos eles afetados pelo processo de envelhecimento.
Entre as causas mais comuns estão:
- Doenças crônicas (doença cardíaca, pulmonar, dor crônica, demência, Parkinson);
- Problemas na próstata – pode fazer idoso urinar muito a noite atrapalhando seu sono
- Depressão e ansiedade;
- Uso de medicamentos (corticoides, doxazocina, tansulosina, antidepressivos, diuréticos, propranolol, metoprolol , diltiazem, descongestionantes, ritalina entre outros);
- Polifarmácia (uso de muitos remédios ao mesmo tempo);
- Consumo de cafeína, nicotina ou álcool;
- Abstinência de remédios, álcool, nicotina – alguns remédios como zolpidem, clonazepam, alprazolam, causam insônia se retirada abrupta, necessitando de uma retirada mais gradual
- Sedentarismo e cochilos prolongados durante o dia;
- Fatores ambientais, como ruídos, luz e temperatura;
- Problemas emocionais, como luto, solidão ou estresse familiar.
Tipos de insônia
A insônia pode se manifestar de diferentes formas:
- Insônia inicial: dificuldade para pegar no sono (demora superior a 30 minutos para adormecer).
- Insônia de manutenção: despertares frequentes durante a noite.
- Insônia terminal: despertar precoce, com dificuldade para voltar a dormir.
O paciente pode apresentar mais de um tipo ao mesmo tempo.
Diagnóstico
O diagnóstico é feito através de uma anamnese detalhada, onde o médico investiga o padrão de sono, o ambiente em que o paciente dorme, medicamentos em uso e doenças associadas.
Em casos específicos, pode ser solicitada uma polissonografia, exame que registra a atividade cerebral, respiratória e muscular durante o sono.
O diagnóstico precoce permite tratar as causas e evitar o uso desnecessário de medicações, especialmente em idosos.
Tratamento da insônia no idoso
Só tratamos insônia se o paciente tem prejuízo no dia seguinte ou seja se sente cansado, etc. Não é tratada insônia que o paciente queixa que dorme pouco (5horas) se for suficiente para ele. Um estudo mostrou que de 100 idosos, 90% dos idosos que queixavam de insônia, não tinham cansaço nenhum no dia seguinte ou seja não precisavam ser tratados
– o tratamento para insônia envolve achar a causa da insônia se possível
O tratamento quando indicado deve sempre começar com mudanças comportamentais e de rotina, pois as medidas não medicamentosas costumam ser mais eficazes e seguras a longo prazo.
Medidas para melhorar o sono (higiene do sono)
- Manter horários regulares para dormir e acordar, inclusive nos fins de semana;
- Dormir em ambiente escuro, silencioso e com temperatura agradável;
- Evitar telas, luzes fortes e aparelhos eletrônicos até duas horas antes de deitar;
- Não ingerir café, chá, refrigerantes, chocolate ou nicotina à noite;
- Fazer refeições leves no jantar e evitar dormir com fome;
- Evitar relógios visíveis, que aumentam a ansiedade;
- Reduzir o consumo de álcool, que atrapalha o sono profundo;
- Evitar cochilos longos durante o dia (no máximo 1 hora antes das 15h);
- Realizar atividade física regular, preferencialmente pela manhã ou tarde;
- Se não conseguir dormir em 30 minutos, levante-se e faça algo relaxante com luz baixa;
- Utilizar a cama apenas para dormir, evitando ler, comer ou usar o celular nela.
- Evitar levar problemas ou discussões para a cama.
- Pegue sol pela manha ou a tarde visto que a exposição solar ajuda regular o ciclo circadiano.
- Visto que um idoso dorme 5-6 horas em média, se dormir muito cedo (20-21 horas da noite) ira acordar muito cedo (3-4horas da manhã), então evite deitar muito sono
- Faça atividades relaxantes antes de dormir – yoga, leitura
Essas medidas reeducam o corpo e o cérebro, restaurando o ciclo natural do sono.
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma das estratégias não farmacológicas mais eficazes para tratar insônia crônica em idosos.
Tratamento medicamentoso
Os medicamentos devem ser usados apenas quando estritamente necessários, sob prescrição médica e sempre após tentativa de medidas comportamentais.
Seu médico irá avaliar o melhor medicamento para você. Vou citar alguns remédios:
- Anti alérgicos para insônia – polaramine, Dramin: devem ser evitados pois aumentam chance de quedas, pioram memória.
- Zolpidem, zolpiclone: devem ser evitados. Alta chance de vicio e perdem efeito conforme o tempo, causa abstinência quando equipe medica tenta retirar. Aumenta chance de quedas em idoso, déficit cognitivos, sonambulismo.
- Clonazepam, lorazepam, alprazolam Diazepam, bromazepam: devem ser evitados em idoso. Piora cognição, aumenta chance de quedas, pode piorar problemas cardíacos. Alta chance de vicio, perde efeito conforme o tempo, causa abstinência quando equipe medica tenta retirar.
- Doxepina: é uma medicação nova que em doses altas é considerado antidepressivo, mas doses baixas serve para insônia manutenção. Pode gerar tontura, ganho de peso, constipação, boca seca em alguns casos.
- Trazodona: em doses altas é antidepressivo, mas doses mais baixas é para insônia de manutenção. Pode gerar tontura, sonolência, dor de cabeça, mas são efeitos colaterais raros, costuma ser uma ótima opção em idoso. Pode usar a longo prazo.
- Mirtazapina: antidepressivo. Pode ser usado para insônia, ganho de peso, aumentar apetite em idosos, ou seja, um antidepressivo ótimo em idosos emagrecidos. Considerado bem seguro, pode usar a longo prazo. Alguns pacientes queixam de boca seca, constipação, náusea, mas no geral maioria dos idosos sem queixas.
- Melatonina: é um hormônio produzido pelo corpo pela glândula pineal, uma glândula que fica na cabeça. É um hormônio que é produzido a noite quando escurece. Existem poucos estudos a longo prazo, mas por ora aparentemente é seguro.
- Fitoterápicos: valeriana.
- Quetiapina, olanzapina, haloperidol-antipsicótico: Não deve ser usado para insônia isolada. geralmente deve ser dado para insônia em pacientes com agitação, agressividade, geralmente idosos com demência ou psicose. Pode aumentar risco de doenças cardíacas, aumenta chance de arritmia, além de ganho de peso, diabetes.
- Amitriptilina: é um antidepressivo que dá sono, mas não é legal para idosos pois causa boca seca, tontura, constipação, retenção urinaria, risco de arritmia.
- Pregabalina, gabapentina: acaba usado quando insônia é por dor pois ajuda no controle da dor e causam sono.
A importância do acompanhamento geriátrico
A insônia raramente ocorre isoladamente no idoso.
Por isso, o geriatra tem papel essencial em identificar fatores associados — como doenças, efeitos de medicamentos e questões emocionais — e criar um plano de tratamento personalizado.
Além de melhorar o sono, o tratamento adequado ajuda a prevenir quedas, melhora a memória e o humor, e contribui para um envelhecimento mais saudável e equilibrado.
CONCLUSÃO
Dormir bem é fundamental para a saúde física, mental e cognitiva.
A insônia deve ser encarada como um sinal de que algo está em desequilíbrio — e não apenas como uma consequência da idade.
Com avaliação médica e medidas corretas, é possível restabelecer o sono natural e garantir noites mais tranquilas e dias mais produtivos.
O sono é parte essencial do envelhecimento saudável.
Agende sua consulta com o Dr. Bruno Krepischi e saiba como tratar a insônia com segurança. Durma melhor, viva melhor.