Alzheimer e Esquecimento

Alzheimer e Esquecimento

Minha mãe anda muito esquecida. Devo me preocupar?

Uma conversa franca sobre memória, Alzheimer e os sinais que importam com Dr. Bruno Krepischi.

Esquecer onde colocou as chaves é comum. Mas quando o “branco” se repete, pode haver algo mais sério por trás. Este texto traz clareza sobre memória, envelhecimento e quando buscar ajuda. Outro dia mesmo, recebi no consultório uma filha, vamos chamá-la de Ana, com o semblante carregado de uma preocupação que conheço bem.

"Doutor, minha mãe, que sempre foi boa de memória, a pessoa mais lúcida da família, de repente parece outra. Ela para no meio de uma frase, frustrada. Esquece o que acabou de me contar. Semana passada, encontrei o controle remoto na geladeira. Isso é só a idade chegando ou... é aquilo que a gente tem tanto medo de falar em voz alta?"

Essa pergunta — de várias formas diferentes — faz parte do meu dia a dia como geriatra. Ela vem carregada de amor, de medo e de incerteza. Minha primeira resposta, tanto para a Ana quanto para você que lê agora, é: calma. O caminho começa com informação, não com pânico.

O esquecimento tem muitas faces, muitos tons de cinza. Nem todas elas apontam para uma doença como o Alzheimer. Por isso, quero conversar com você hoje não apenas como médico, mas como alguém que pode ajudar a clarear esse caminho, mostrando a diferença entre o que faz parte do envelhecimento natural e o que deve ser investigado com mais atenção.

O Esquecimento pode ser normal?

Sim. E para que as famílias entendam bem a diferença

Um esquecimento benigno tem algumas pistas. Primeiro, ele não acontece toda hora. É ocasional, um “branco” aqui e ali. Outra coisa: geralmente perdemos os detalhes, não o quadro geral. Você pode até esquecer o nome do filme, mas lembra perfeitamente que foi ao cinema com seu neto no domingo.

E o mais clássico de todos? A informação “volta”! Sabe aquela palavra que fugiu? De repente, no meio do banho, ela aparece. O mais importante de tudo, porém, é que isso não atrapalha sua vida de verdade. Você continua pagando suas contas, cozinhando, mantendo sua rotina. Sua independência está ali, intacta.

Na geriatria classificamos o paciente em 3 tipos:
  1. Queixa subjetiva de memória: quando o paciente fala que está esquecido, mas o geriatra faz os testes de memória e são todos normais.
  2. Transtorno cognitivo leve: quando a pessoa, família fala que esta esquecida, os testes dão resultados alterados, mas a pessoa ainda consegue fazer as coisas do seu dia a dia.
  3. Demência – aqui só podemos falar quando a pessoa não consegue mais fazer as coisas do dia a dia, ou seja, ele perdeu sua funcionalidade, sua autonomia.

Então Quando o esquecimento vira um sinal de alerta?

A luz vermelha acende quando a perda de memória deixa de ser algo esporádico e começa a afetar a autonomia.

No dia a dia com meus pacientes, oriento as famílias a observarem com atenção, mas sem exagero, sinais como:

  1. Falhas de memória recorrentes
    • Normal: esquecer de um recado.
    • Alerta: repetir várias vezes a mesma pergunta em pouco tempo, como se a conversa nunca tivesse acontecido. esquecer direto recados, compromissos.
  2. Tarefas antes simples se tornam difíceis
    • Normal: reler uma receita de comida nova.
    • Alerta: não conseguir preparar um prato feito a vida toda ou esquecer o fogo ligado.
  3. Desorientação no tempo e no espaço
    • Normal: se confundir com a data em dias sem rotina definida.
    • Alerta: se perder em trajetos conhecidos ou não saber em que dia ou mês, ano está, não saber onde mora.
  4. Dificuldade para se expressar
    • Normal: ter uma palavra “na ponta da língua”.
    • Alerta: parar frases pela metade, esquecer palavras que antes conhecia, usar palavras trocadas ou não acompanhar uma conversa.
  5. Mudanças de comportamento e humor
    • Normal: ficar mais impaciente ou ranzinza.
    • Alerta: apresentar desconfiança injustificada, acusações sem sentido (acusar familiar de roubar, que vizinhos querem fazer mal, etc) ou isolamento social repentino, apatia.

“Acho que identifiquei alguns sinais. E agora, Doutor?”

Se você reconheceu parte desses sinais, saiba que buscar informação já é um passo importante. O medo e a negação são compreensíveis, mas não ajudam. É nesse momento que uma avaliação cuidadosa pode fazer toda a diferença.

Como geriatra, vejo meu papel como o de um investigador ao lado da família. A perda de memória é um sintoma que pode ter várias origens, e descobrir a causa é essencial.

Entre os fatores que podem imitar ou agravar problemas de memória estão:
  • Deficiência de vitamina B12, ácido fólico;
  • Sífilis;
  • HIV;
  • Cirrose hepática (pode gerar acumulo de toxinas gerando confusão mental);
  • Problemas nos rins (assim como a cirrose pode gerar acumulo de toxinas gerando confusão mental);
  • Hipotireoidismo;
  • Depressão em idosos (às vezes chamada de “pseudodemência”);
  • Uso de múltiplos medicamentos (polifarmácia). Existem diversos medicamentos que pioram memoria (clonazepam, alprazolam, zolpidem, zolpiclone, amitriptilina, nortriptilina, gabapentina, pregabalina, buscopam, paroxetina, ciclobenzaprina, etc).

Por isso, a consulta envolve ouvir com atenção, conversar com familiares, aplicar testes cognitivos simples e solicitar exames laboratoriais quando necessário.

 O diagnóstico não é o fim, mas o começo de um novo plano

“Ok, Dr. Bruno, e se, depois de tudo, for mesmo Alzheimer ou outro tipo de demência?” Eu entendo o peso imenso dessa pergunta. E a minha resposta é sempre a mesma: o diagnóstico não é uma sentença de fim de linha. De jeito nenhum.

Um diagnóstico precoce nos dá o poder de agir. Podemos iniciar medicamentos que ajudam a estabilizar os sintomas. Podemos criar uma rotina de estimulação cognitiva, com jogos e atividades. Podemos ajustar o ambiente da casa para torná-lo mais seguro e funcional. Podemos, acima de tudo, orientar a família, que é o pilar de todo o tratamento.

Receber um diagnóstico é o momento em que paramos de lutar contra uma sombra desconhecida e começamos a cuidar de uma condição real, com nome e com um plano de ação.

Uma mensagem final para você, cuidador e paciente

Conviver com a possibilidade de perda de memória não é fácil. Para quem sente os sintomas, há medo. Para quem cuida, há preocupação. Mas o pior caminho é enfrentar isso sozinho.

Buscar ajuda é o passo mais importante. Como geriatra, meu papel não se limita a colocar nomes em diagnósticos, mas orientar famílias, acompanhar cada etapa e valorizar cada pequena conquista.

Se algo do que você leu trouxe lembranças ou preocupações, veja isso como um convite à ação — e não ao desespero. Informação, prevenção e acompanhamento fazem toda a diferença.

Vamos conversar?

Quer entender melhor os sinais do Alzheimer ou de esquecimento?

Agende uma consulta com o Dr. Bruno, tire suas dúvidas e receba orientação especializada com um geriatra.

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